Quando a velocidade vira commodity
Quando qualquer um constrói rápido, chegar antes deixa de proteger. Uma conversa com Diogo Dutra sobre o que ficou valendo no lugar da velocidade.
Teve uma época em que ser rápido bastava. No mundo das startups, a velocidade virou quase um valor em si, a ponto de a gente medir a competência de uma empresa pela rapidez com que ela entregava. Quem chegava primeiro largava na frente, montava a plataforma antes, ganhava seis meses de vantagem e usava esse tempo para se firmar enquanto os outros ainda estavam construindo.
No segundo episódio do Life After AI a gente conversou com o Diogo Dutra, fundador da CAOS Focado e venture builder que trabalha há anos com tecnologia de fronteira, sobre o que acontece quando essa conta para de fechar. E ela está parando, porque a IA fez com que aqueles meses de vantagem virassem uma semana. Se qualquer um constrói rápido, e agora qualquer um constrói rápido, então chegar antes deixou de proteger.
Ao longo dos anos, o venture capital foi transformando o caminho do sucesso em fórmula. Primeiro você vira software, depois plataforma, depois precisa ter efeito de rede, e assim por diante. Essas fórmulas ganharam status de tese e de esperteza, e uma geração inteira de fundadores aprendeu que só existia sucesso se você seguisse esse roteiro. O problema é que fórmula é justamente o tipo de coisa que qualquer um consegue repetir. Quando a barreira técnica cai, a vantagem que vinha da fórmula cai junto.
Quando construir fica fácil, fica tentador pular a parte mais difícil e menos valorizada de todas, que é o discovery, ou seja, descobrir se o problema que você está resolvendo vale mesmo a pena. O Diogo contou que, no trabalho dele com deep tech, ele não tem essa escolha, pois errar a direção custa três anos de pesquisa. Isso obriga a um tipo de cuidado que o resto do ecossistema, acostumado a pivotar barato, foi desaprendendo. Ele prefere chamar isso de intensidade em vez de velocidade, e eu acho que a distinção importa, pois dá para manter ritmo de entrega sem transformar a pressa num fim em si mesmo.
A conversa passou pelo Incorruptible, o livro novo do Eric Ries, e por uma ideia que amarra bem o resto. A gente costuma tratar qualidade e ética como coisas que competem com o resultado, como se cuidar delas fosse abrir mão de eficiência. Mas a leitura que o Ries parece propor, e que a gente foi construindo ali, é que no longo prazo esses vetores convergem. Focar em qualidade e manter os valores no lugar não é o caminho lento, é o caminho que constrói a empresa que dura, com cliente que fica e marca que significa alguma coisa. O atalho, esse sim, costuma ser voo de galinha.
Se a gente pensa numa organização como um organismo, o maior desafio da adoção de IA hoje talvez não seja a tecnologia, e sim a falta de conhecimento formalizado. As empresas não param para refletir sobre a própria memória. E memória aqui não é arquivo guardado, é algo vivo, que existe consolidado mas precisa ser reavaliado o tempo todo. As IAs projetam muito bem o passado e inventam futuros linguisticamente coerentes, mas não necessariamente coerentes de verdade. Formalizar a memória de uma organização não dispensa as pessoas, pelo contrário, coloca cada uma num processo contínuo de reflexão sobre o que a empresa sabe e sobre o que já envelheceu.
Se você trabalha com inovação, investe, ou está tentando fazer IA funcionar dentro da sua organização, queria muito ouvir como você enxerga isso. A velocidade virou commodity aí também? E o que você acha que ficou valendo no lugar?
O episódio completo, com o Diogo, está no YouTube e no Spotify do Life After AI.